Diário

Entre estudos e reflexões, o cuidado.

Reflexões curtas sobre presença, relações e o cotidiano da terapia. Um caderno aberto — para pensar em voz alta.

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Ago 2026 · 8 min

Nem todo controle traz segurança

Sobre a diferença entre cuidar de si e vigiar-se o tempo todo.

Nem todo controle traz segurança

Há momentos em que controlar parece a única maneira possível de se sentir segura.

Controlar o que vai acontecer. O que o outro vai pensar. O que pode dar errado. As palavras antes de dizê-las, os sentimentos antes de senti-los, os caminhos antes mesmo de percorrê-los.

Talvez exista, por trás de tanto controle, desejos muito humanos: de não ser surpreendida pela vida, um medo de sofrer, do abandono. Ou ainda um fundo histórico que precisou usar o controle para se sentir minimamente segura.

Para sobreviver.

Mas a vida não se deixa controlar por inteiro.

E é justamente aí que o controle, que um dia pode ter sido uma forma de proteção, começa a nos afastar daquilo que está acontecendo de verdade.

O problema não está em querer organizar, planejar ou cuidar. O controle se torna sofrimento quando deixa de ser uma escolha e passa a ser uma exigência: preciso saber, preciso prever, preciso garantir, preciso evitar.

E, quanto mais tentamos controlar aquilo que não está sob nosso alcance, mais estreito pode se tornar o espaço para viver.

Porque segurança não precisa ser a ausência de incerteza.

Talvez segurança também seja poder confiar que, mesmo sem saber exatamente o que virá, poderemos nos encontrar com aquilo que vier.

Há uma diferença entre preparar-se para a vida e tentar impedir que ela aconteça.

Entre cuidar de si e vigiar-se o tempo todo.

Entre escolher conscientemente e precisar ter certeza.

Quando conseguimos perceber essa diferença, algo pode se abrir. Em vez de gastar tanta energia tentando controlar o mundo, podemos voltar a atenção para aquilo que efetivamente está ao nosso alcance: perceber o que sentimos, reconhecer nossas necessidades, estabelecer limites, fazer escolhas e estar presentes no encontro com o que a realidade nos apresenta.

A consciência é também uma possibilidade de liberdade. Ao perceber como estamos nos relacionando com aquilo que acontece, podemos encontrar outras formas de responder.

Nem sempre será possível mudar o que acontece.

Mas talvez possamos mudar a maneira como nos encontramos com o que acontece.

E isso não significa abandonar o cuidado ou viver sem planejamento. Significa abrir espaço para uma segurança menos rígida, que não dependa de ter tudo sob controle.

Uma segurança que possa dizer:

Eu não sei exatamente o que vai acontecer.

Mas posso estar aqui.

Posso sentir.

Posso escolher.

Posso me ajustar.

Posso confiar que não preciso ter todas as respostas antes de dar o próximo passo.

Talvez a verdadeira segurança não esteja em conseguir controlar a vida.

Talvez esteja em poder estar suficientemente presente para vivê-la.